Um estudo recente revelou a descoberta de um novo gênero de besouros da família Ciidae, um grupo de insetos altamente especializado que depende exclusivamente dos basidiomas de macrofungos poroides, conhecidos popularmente como “orelhas-de-pau”. Esses fungos são utilizados pelos besouros como fonte de alimento, abrigo, local de cópula e oviposição, tornando os Ciidae organismos-chave nos processos ecológicos associados à decomposição e à ciclagem de nutrientes.
Ao degradarem as estruturas fúngicas, que poderiam permanecer por décadas no ambiente até sua decomposição natural, esses besouros exercem um papel ecológico fundamental, acelerando o retorno de nutrientes ao solo e contribuindo para o funcionamento dos ecossistemas.
Historicamente, o conhecimento sobre a fauna brasileira de Ciidae esteve concentrado principalmente na Mata Atlântica, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste do país. Biomas como o Cerrado e a Caatinga, por outro lado, permaneceram por muito tempo pouco explorados do ponto de vista científico. A descrição desse novo gênero amplia de forma significativa a compreensão sobre a diversidade do grupo, revelando a existência de uma fauna distinta daquela registrada nas regiões mais estudadas do Brasil.
O estudo também reforçou a importância da preservação dos biomas brasileiros, especialmente aqueles submetidos a intensas pressões antrópicas, como a Caatinga e o Cerrado. As espécies descritas apresentaram baixa frequência de coleta, distribuição geográfica restrita e baixa densidade populacional, características que podem aumentar sua vulnerabilidade frente à degradação ambiental e colocá-las em risco de extinção.
As novas espécies foram registradas em áreas da Estação Ecológica do Raso da Catarina, no Parque Nacional do Catimbau e no Parque Nacional da Furna Feia, indicando que o grupo pode ocorrer em diferentes regiões da Caatinga. Trata-se do primeiro registro de besouros Ciidae para esse bioma, resultado de dados obtidos no âmbito do PPBio Semiárido Rabeca, que tem contribuído para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade de áreas historicamente pouco amostradas.
Os resultados foram publicados no artigo científico “Bucerocaputis gen. nov. (Coleoptera: Ciidae) from the Cerrado and Caatinga of Brazil, with the description of two new species”, de autoria de Igor Souza-Gonçalves, Cristiano Lopes-Andrade e Paschoal C. Grossi, pesquisadores vinculados à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e à Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A descoberta evidencia que a Caatinga ainda guarda uma biodiversidade pouco conhecida e destaca a relevância da pesquisa científica para revelar, compreender e conservar os organismos que sustentam o funcionamento dos ecossistemas brasileiros.
